Arte e Arquitetura
fazer da arte, e através dela, uma ação real no mundo...

 

"Au commencement est le trou...
ce mode d'organisation autor du vide... "

    Jacques Lacan
"quando uma forma cria beleza, chega a ser funcional, e por tanto, fundamental para a arquitetura"
    Oscar Niemeyer



Maquete do objeto apresentado na documenta 12, Kassel, Alemanha

 

A INTUIÇÃO: esse “princípio de velocidade” (Gilles Deleuze).

Arte implica uma experiência estética que leva à reflexão.

A abrangência da arte é a afirmação poética do juizo, da inversão de sentidos, que nasce da negociação compartilhada e do dissenso.

A lógica não é o fundamento da arte, mas a arte não é necessariamente inimiga da lógica.

A arte contemporânea vive da recriação dos seus suportes. O aspecto positivo de não se ter mais certezas a priori sobre o que denominamos arte hoje, nem dos lugares nos quais ela se manifesta, é que a arte pode assumir várias configurações ao mesmo tempo. A materialidade da arte hoje se multiplica constantemente. Instalações, desenhos, fotografias, vídeos, etc, relacionadas à "revolução algoritmica", dão ao acontecimento artístico uma ubicuidade particular. Podemos dizer que a arte contemporânea está onde um trabalho congrega precisão e risco, sentido e surpresa.

Através da elaboração artística, as coisas, os acontecimentos e as idéias recebem novos significados que transcendem as distinções entre o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o útil e o inútil, o bom e o mau gosto.

Mas é possível atuar com um pé no domínio da arte e outro no âmbito no chamado “mundo real”.

Para ser considerado obra de arte, um trabalho deve operar no interior do espaço expositivo (podendo estender-se fora dele) e possuir uma lógica estética que seja integra em relação à especificidade da obra.

Porque a arquitetura está emparentada com a arte, num objeto arquitetônico (o que inclui uma potência lógica ordenadora, como a denomina Lacan) há uma dimensão manifesta ( o que se "vê") e uma dimensão latente (o aludido) que constituem sua "aura". Por isso ela é também, junto com a pintura, "cosa mentale". E porque a modernidade produziu nos primeiros anos do século XX uma profunda revolução na estética e no pensamento do objeto, devemos todavia reconhecer que é necessário mais do que nunca identificar seus valores essenciais e libertá-los das aderências ideológicas, para possibilitar sua resignificação.

BELEZA:
"A beleza é tudo o que resta da estupidez do passado e da brutalidade do futuro",
Pier Paolo Passolini.

POÉTICA DA SIMPLICIDADE:
Não se trata de síntese e sim de dizer ou fazer o essencial. Que não precisa falar ou fazer demais.
Se trata de coisas que não estão obvias a um primeiro olhar.

ARTE:
Conceito sempre em mutação.
Duplica o mundo, inventando a possibilidade real do outro.
Lugar de confluência do universal e do particular.

ARTE CONTEMPORÂNEA:
Implica uma transformação não só na maneira, mas também no sentido e sua função. Faz tempo que a arte deixou de ser feita para agradar, e hoje é uma linguagem eloqüente, opinante e critica. Um artista contemporâneo é também um investigador. A arte quer analisar, comunicar, refletir, fazer pensar.
A arte que pode ser ensinada e só o ponto de partida, o resto é uma conquista individual.

FAZER ARTE:
Fazer arte hoje, implica lidar com o frágil, o efêmero, o transitório como contraposição à força do mundo do espetáculo permanente, à sucção do mercado. Implica também na busca da interação com o “participante” (o público) para produzir uma “realidade outra”.
Arte é a inscrição do tempo na matéria, apropriado desde uma subjetividade.

Devemos ser capazes de encontrar nossas necessidades espirituais de beleza. Mas ninguém sabe o que ela é. É necessário identificar o significado (a respeito do que ela é) e mostrar como ele está incorporado ao objeto. Usar o significado para interpretar o objeto.
A arte é uma resposta que de algum modo cicatriza feridas.

MODERNISMO:
Mais do que um estilo é uma coleção de idéias que tinham em comum a vontade de mudar o mundo. No objeto estético, privilegia o abstrato e despojado, o linear e o geométrico. Estava identificado com o uso do concreto, do vidro, do aço. Foi uma investigação sobre o corpo humano e social, transformados em mecanismos bem articulados.
Hoje o modernismo continua sendo uma influência de grande peso no design, no mobiliário e no uso de conceitos tais como cultura e identidade.

VANGUARDISMO:
Compulsão ao novo; "make it new". Implica fazer da ruptura uma nova tradição.

FORMA:
Sempre carrega um significado. E o significado mais profundo ou mais importante sempre está no nível da forma, não no nível do referente ou do conteúdo iconológico. A forma tem também uma “função ideológica”.

CIDADES, BIENAIS, OBRA DE ARTE:
As cidades constituem hoje um cenário privilegiado de intercâmbios culturais que, em relação com a cena da arte contemporânea, se expressa nas bienais como espaços de negociação de agendas, representações e construção de prestigio.

As obras funcionam também como mecanismos de análise social e política e se deslocam do contexto de origem do artista, para se relocalizar nos contextos mais diversos. Elas problematizam esses contextos, deslocando-se por circuitos mundiais.

O autor pode operar agora desde várias cidades e monta sua obra nos mais inesperados lugares do planeta.

Apesar da pulsão comercial que movimenta os "mercados artísticos", a obra de arte continua sendo algo que não pode ser totalmente controlado. Pois sempre escapa algum efeito e mesmo promovidas pelo poder econômico, elas desafiam os públicos e as instituições. E esse algo que escapa é a capacidade de apresentar aquilo que incomoda que seja representado.

Por isso as obras de arte não são simples documentos da historia, senão acontecimentos em si mesmos.

AGREGADO SENSÍVEL:
Campo expandido: intenção de moldar a realidade do mundo, á arte. Encontro com o outro da arte: o real, criando alternância entre a matéria/ real e a matéria/ arte.

Impulso da arte em relação ao real e aproximação do real da arte. Arte como ação real no mundo, num espaço constituído no tempo e pelo tempo (como a favela).

Experiência espacial emparentada ao ”tempo ativo” do samba.
O tempo como elemento ativo sendo a duração.
Universo de possibilidades e experiências ambientais (subir - descer; dentro - fora; encima - embaixo; coberto - descoberto)
Cor no espaço, acoplada na duração.
A cor como passagem entre a matéria e o espírito, entre a memória do espaço e o vivencial do tempo.
Trata-se, na arquitetura, da criação de um ambiente não meramente utilitário ou racional, senão também, completo na sua beleza.
Apreensão da realidade como experimentação produzindo uma realidade “outra”.

Jorge Mario Jáuregui


Exposição no MAR (Museu de Arte do Rio) | 01 de março a 14 de julho de 2013


"El arte de la primera mitad del siglo XX fué ante todo crítica, destrucción y recreación del lenguaje: asalto a los significados tradicionales.

La rebeldia del arte pareció nihilista y no fué sino una inmensa tentativa de reforma semántica. Hoy el nihilismo de la nueva sociedad industrial, nunca soñado por Nietzche, ha vuelto anacrónicos todos los significados, sin excluir a la rebelión contra la significación. Creo que el artista moderno - sobre todo en países como los nuestros, marginales o recién llegados a la historia - debe buscar nuevamente el sentido. El de las cosas y el de las palabras. No afirmo que deba conocerlo, pretención de nuestros padres y abuelos: digo que debemos buscarlo. Critica de la realidad y del lenguaje: perpétuo poner eu entredicho los valores que los satisfechos y los poderosos intentan imponernos; y búsqueda de la significación de la palabra: confrontación entre el que habla y el que oye, entre el signo que dice lo ya dicho y lo no dicho que espera su nombre."

Octavio Paz, 1965