Ato de Criação
 

Que coisa é o ato de criação? Tem a ver com “ter uma ideia”: Ter uma ideia em qualquer âmbito de criação (filosofia, cinema, ciência, arquitetura) significa considera-la como o potencial já empenhado neste ou naquele modo de expressão, e inseparável do modo de expressão, e por isso não se tem uma ideia “em geral”. Em função da técnica que conheço posso ter uma ideia em um certo âmbito, uma ideia em filosofia ou em cinema ou em arquitetura por exemplo.
A arquitetura é uma disciplina que cria e inventa como as outras.
A filosofia cria conceitos, a ciência cria funções e a arquitetura cria “agregados sensíveis”.
Mas, para criar, se requer de uma “necessidade”. Alguém que cria não o faz para o seu prazer. Alguém que cria faz só aquilo de que tem absoluta necessidade.
Disto isto, vou enunciar seis qualidades que  Calvino coloca como as virtudes que deveriam nortear nossa atividade, tanto no universo artístico quanto na vida quotidiana. São parâmetros relacionados aos imperativos éticos que eu traduzo ao campo da arquitetura e do urbanismo, permitindo visualizar qualidades fundamentais ao exercício da nossa profissão:

Leveza
Leveza tem a ver com “retirar o peso” e está associada às imagens de suspensão, flutuação e elegância do “corpo” arquitetônico.

Rapidez
A rapidez é um vetor de direção que envolve expressão dinâmica, intensidade e tensão.

Exatidão
A exatidão tem a ver com a ordem de composição, questão muito ampla que envolve diversos aspectos que sinteticamente resumo assim: tradicionalmente a noção de ordem estava relacionada à harmonia, equilíbrio, proporção e perfeição: hoje o interesse se desloca para a desarmonia, não equilíbrio, instabilidade dinâmica e descontinuidade. A exatidão se relaciona diretamente à geometrização do objeto; o trabalho tanto com geometrias complexas quanto geometrias simples, elaboradamente articuladas.

Visibilidade
O croquis é a forma como as ideias vem ao mundo no campo da arquitetura e do urbanismo.

Multiplicidade
Multiplicidade e complexidade são conceitos associados referidos à estética da saturação e aos modos de relação com o contexto, e implicam a presença de numerosos componentes na percepção do objeto e do espaço urbano.

Consistência
A consistência remete à questão da composição, à elaboração da percepção, dos princípios estruturadores básicos. Assim, a ideia de consistência está relacionada ao “bem armado”, “bem montado”, de relações necessárias, mesmo que fragmentadas, entre todos os componentes.

 

Jorge Mario Jáuregui