Miscelâneas
Conjunto Pedregulho (1947-60): elogio da conjunção das artes com conteúdo social

 


Vista do Conjunto Pedregulho de Affonso Eduardo Reidy,
durante visita feita com o arquiteto Enric Miralles

Sem dúvida, o Conjunto Pedregulho de Affonso Eduardo Reidy é uma das mais altas realizações da arquitetura e do urbanismo de conteúdo social, do país, e da América Latina.

Considero que não há realização do espírito no país, no campo da arquitetura mais plena do que esta, mostrando o caminho de uma forma possível (e materializada) de vida, oferecendo a convivência das diferenças, qualificando a periferia e realizando ao mesmo tempo um trabalho de integração das artes: arquitetura, urbanismo, paisagismo, muralismo, e mobiliário interior de altíssimo nível. É só ver as imagens dos interiores logo após a inauguração dos prédios, com poltronas BKF (que hoje ainda muitos cidadãos inclusive nem conhecem) para perceber até que ponto, muito sofisticado, na concepção da habitação de interesse social tinha se chegado no país, e depois se perdeu. E a generosidade com que se pensava a habitação popular, indo muito além de considerações quantitativistas, incluindo clara preocupação e consciência sócio-ambiental. Redução do consumo energético mediante edificações com ventilação cruzada, áreas sombreadas, varandas, uso de cobogós, pés direitos duplos, etc, foram recursos totalmente integrados de design de primeiro nível. E isto, tanto nas unidades residênciais quanto na creche, escola, lavanderia comunitária, posto de saúde, equipamentos esportivos e mercado, que fazem parte do que se entendia por “programa habitacional de interesse social”, que abrangia além dos apartamentos, todos os outros equipamentos necessários para a evolução de uma vida social interativa e conectiva.

Ou seja, o programa habitacional não se reduzia à “habitação” senão que incluía, sabiamente, todo o resto dos equipamentos sociais complementares necessários. Mas é sobretudo pelo alto nível da elaboração arquitetônica que este Conjunto (ou o que sobrou dele, seria melhor dizer) constitui uma “master piece”. Um ponto alto que jamais volta a se atingir no país, em grande parte, porque todo o entrelaçado de preocupações estéticas, sociais, artísticas, tecnológicas e políticas, que formaram parte do ideário daqueles anos, se desvaneceu.

O desenho ondulante do edifício residencial acompanhando as curvas do terreno no topo do morro, diáloga brilhante e elegantemente com o desenho da estrutura de vigas curvas do ginásio coberto da escola, localizada na parte baixa do terreno. Este grupo de edificações, inspirado nos projetos de Le Corbusier, mostra como é possível “com crus materiais construir relações comovedoras”, como queria o “Corbu”.

É absolutamente prioritário que este maravilhoso grupo de edificações que restaram, seja recuperado até nos seus mais mínimos detalhes, incluindo arquitetura, urbanismo, paisagismo, os murais e o mobiliário interior, para poder continuar servindo como mais alto exemplo do que é possível realizar em termos de condições de moradia, quando existe um pensamento e um desejo que vai muito além do quantitativo, apontando claramente para o qualitativo, e por esta razão, ser capaz de inscrever um trabalho (e uma obra de autor) no Panteón das mais altas realizações do espírito humano.

Affonso Eduardo Reidy, Roberto Burle Marx, Cándido Portinari e Anísio Medeiros, trabalhando com unidade de concepção, deixaram para a posteridade uma “obra de arte total”.

Jorge Mario Jáuregui

Texto publicado na Revista O Globo, ano 5, nº 262, 2 de Agosto de 2009